sábado, 9 de outubro de 2010

Gal Costa

Gal Costa, nome artístico de Maria da Graça Costa Penna Burgos, (Salvador, 26 de setembro de 1945) é uma cantora brasileira.
Gal Costa é filha de Mariah Costa Pena, falecida em 1993 que foi sua grande incentivadora, e Arnaldo Burgos.Sua mãe contava que durante a gravidez passava horas concentrada ouvindo música clássica, como num ritual, com a intenção de que esse procedimento influísse na gestação e fizesse que a criança que estava por nascer fosse, de alguma forma, uma pessoa musical. Gal jamais conheceu o seu pai, que faleceu quando ela tinha por volta de 15 anos. Por volta de 1955 se torna amiga das irmãs Sandra e Dedé (Andreia) Gadelha, futuras esposas dos compositores Gilberto Gil e Caetano Veloso, respectivamente. Em 1959 ouve pela primeira vez o cantor João Gilberto cantando Chega de saudade (Tom Jobim/Vinícius de Morais) no rádio; João também exerceu uma influência muito grande na carreira da cantora, que também trabalhou como balconista da principal loja de discos de Salvador da época, a Roni Discos. Em 1963 é apresentada a Caetano Veloso por Dedé Gadelha, iniciando-se a partir uma grande amizade e profunda admiração mútua que perdura até hoje.
Quando GAL COSTA nasceu, no dia 26 de setembro de 1945, o mundo festejava o começo de um período histórico repleto de perspectivas otimistas, mudanças de comportamento, alterações culturais e avanços políticos. A Segunda Guerra Mundial, que embaralhou por seis anos os podres poderes das grandes potências, deixando um saldo de milhões de mortos, havia acabado 24 dias antes com a rendição oficial do Japão.

Esse dado foi tão determinante que, no Brasil, multidões foram às ruas saudar os soldados brasileiros que retornavam das batalhas travadas na Itália. A população aproveitou a euforia para reivindicar mudanças na política ditatorial de Getúlio Vargas, atrelado ao poder desde 1939. Eleições diretas são convocadas, mas o Exército, por temer a reeleição de Getúlio, promove um golpe "preventivo": Vargas renuncia em 29 de outubro. Eurico Gaspar Dutra é eleito o novo presidente e, entre os seus primeiros atos oficiais, estava o encerramento definitivo dos cassinos no Brasil.

Na França, as mulheres finalmente adquiriam o direito ao voto, até então exclusividade masculina. Carmen Miranda, residente nos Estados Unidos desde o final da década de 30, chega ao posto de terceiro artista mais bem pago do show business norte-americano. E, por ainda não existir televisão, o cinema e o rádio eram veículos extremamente poderosos e populares. Em 1945, Joan Crawford ganha o Oscar de melhor atriz pelo filme Mildred Pierce, e o trompetista Oscar Peterson faz a sua primeira gravação. O trio vocal Andrews Sisters conquista os hit parades com Rum and Coca-Cola, hoje um clássico do pós-guerra.

No Brasil, a revista de maior circulação era a extinta O Cruzeiro, fundada por Assis Chateaubriand. As rádios apontavam sucessos como Bolinha de Papel (Geraldo Pereira), Izaura (Herivelto Martins e Roberto Roberti) e Eu Nasci no Morro (de Ary Barroso). As cantoras mais importantes eram as irmãs Linda e Dircinha Baptista. O malemolente Dorival Caymmi lançava duas canções, Dora e Doralice. Com sua voz de barítono, Nelson Gonçalves encantava o Brasil com a épica Maria Bethânia, composição que o destino levaria, no interior da Bahia, a fazer um menino chamado Caetano Veloso a batizar em junho de 1945 sua irmã caçula com o mesmo nome da canção escrita por Capiba.
A bagunça do (des) governo Collor começava a baixar a bola, depois da renúncia presidencial no final de dezembro. Assumia o governo o vice Itamar Franco, que logo convida Fernando Henrique Cardoso para ocupar o Ministério da Fazenda. Na seqüência, Paulo César Farias, o PC, homem que controlava as finanças do esquema Collor, seria preso em Bangkok e deportado da Tailândia para o Brasil. Morriam Federico Fellini, Audrey Hepburn, Grande Otelo, Isaurinha Garcia e Lúcio Alves, todos grande nomes. A chacina da Candelária horroriza o mundo ao revelar o grau de violência presente na sociedade brasileira.

Em 1993 Gal Costa também perderia sua mãe, a escritora Mariah Costa Penna, figura próxima em todas as fases de sua vida, amiga, parceira e incentivadora. Parte da gravação do disco O Sorriso do Gato de Alice aconteceram em Nova York nessa mesma época, com Gal bastante abalada, mas obrigada a acompanhar mixagens e, em algumas faixas, colocar voz.

Talvez por esse contexto difícil -- e também devido à produção inteligente de Arto Lindsay -- o disco se revelou um dos mais belos de Gal. Canções perfeitas, arranjos exatos e interpretações emocionantes vão garantir a O Sorriso do Gato de Alice vida musical longa. Caetano Veloso compôs duas músicas de safra rara (Bahia, Minha Preta e Errática), Gilberto Gil também se esmerava em outras duas (Você e Você e Lavagem do Bonfim), enquanto Jorge Ben Jor produzia três dinamites (Bumbo da Mangueira, Alcahool e Eu Vou lhe Avisar) e Djavan ganhava a música mais trabalhada (Nuvem Negra) desse CD irretocável.

Gerald Thomas, pouco depois, foi chamado por Gal para dirigir o show de lançamento do disco, no Rio de Janeiro. Mais uma vez as platéias cariocas conservadoras recebem mal as propostas cênicas do diretor, que, depois de vaiado, reage com gestos e caretas. Críticas na imprensa lamentavam ver a cantora "tolhida", "mal aproveitada" e outras tolices. Restaria ainda o grande escândalo de a blusa de Gal ter se aberto e exibido os seus seios, durante a apresentação da música Brasil. A foto foi publicada com destaque no país inteiro, gerou enquetes, discussões, ataques, crônicas e defesas. Gal Costa seguiu de peito aberto e cabeça altiva.

O Sorriso do Gato de Alice chegou a São Paulo já com a aura de montagem incomum. O público paulistano lotava o Palace para ver a cantora escalando um telhado íngreme, cantar sentada no chão, usar figurino semelhante a uniforme de operária e provar porque era a maior voz do Brasil. Show seco e emocionante, límpido e rascante. Espetáculo assustador em sua solidão cênica, que fazia Gal lembrar um felino solto pelas madrugadas.

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